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  • Editora Pedregulho

Sintomas e os signos: o tempo e o poliamor

Por Hugo Estanislau


1. Introdução



Este projeto de artigo vem apresentar uma abordagem de leitura semiótica de poemas do livro Sintomas (2020) de Renan Peres. Primeiramente, trataremos da semiótica pierciana e suas particularidades para após efetuarmos o debruçar sobre os poemas escolhidos.




2. A semiótica


Ao apresentar o que é a semiótica no sentido amplo, Bacha (2005) parafraseia o linguista e semioticista alemão Winfried Nörth ao expor que

a semiótica é a ciência dos signos e dos processos significativos, sendo ao mesmo tempo uma ciência teórica e uma ciência aplicada. Como ciência teórica ela estuda a natureza dos signos, sua tipologia, a gênese e a estrutura dos sistemas sígnicos, a estrutura de textos lingüísticos e não lingüísticos, assim como os processos de cognição e comunicação. Como ciência aplicada ela tem pontos de contato com todas as ciências que examinam processos sígnicos (NÖRTH, 1995, apud BACHA, 2005, p. 8).


Para Perez (2004) o estudo da semiótica esteve presente nas investigações científicas humanas e coincide com o estudo da filosofia por volta de dois mil e trezentos anos. Embora o léxico “semiótica” seja recente, o estudo das linguagens e dos signos é remoto. O advento da semiótica como conhecemos na contemporaneidade se deu com as investigações do filosofo americano Charles Sanders Peirce, contudo, dentro dos ramos da semiótica, três, segundo Perez (2004), são notáveis: a semiótica da cultura, de tradição Russa; a semiótica greimasiana, francesa, e a semiótica peirceana. Sobre Peirce, M. L. Bacha (2005, p.7) apresenta:

Charles Sanders Peirce foi o moderno fundador da Semiótica, ou ciência dos signos, como uma consequência de sua investigação dos mecanismos de pensamento e raciocínio que dão suporte aos métodos através dos quais as ciências conduzem suas investigações. (...) Sua semiótica é a ciência dos signos, que faz parte de uma arquitetura filosófica, tendo um caráter geral e abstrato, descrevendo as condições em que o sentido pode ser produzido ou compreendido, fornecendo uma metodologia para sua análise.


Essa ciência dos signos, para Peirce (1931 apud ECO, 1980, p.10) é “a doutrina da natureza essencial e das variedades fundamentais de cada semiose possível". E complementa:

Por semiose entendo uma ação, uma influência que seja ou coenvolva uma cooperação de três sujeitos, como por exemplo um signo, o seu objeto e o seu interpretante, tal influência tri-relativa não sendo jamais passível de resolução em uma ação entre duplas (ibdem, p.10).


Nesse trexo, Peirce defende o que denominou como concepção triádica. Lancastre e Corte-Real (2009, p. 17), resumem esse conceito informando que

trata-se de uma relação entre três elementos, que nas designações de Peirce são: (1) o “representamen” (o sinal em sentido estrito, ou signo, para recorrer ao termo mais usual na semiótica de língua portuguesa), (2) o “object” (objeto) a que se refere o signo e (3) o “interpretant” (interpretante) que é o efeito que o signo cria na mente de quem o recebe.


Na semiose da concepção triádica o signo tem importante instituição e com o intuito de decifrar esse léxico, (principalmente em língua portuguesa onde ele é assimilado aos corriqueiros signos zodiacais, por exemplo), para a semiótica peirceana, o que se denomina signo (PEIRCE apud PEREZ, 2007) está muito próximo do conceito de representação, ou seja, o signo e representação aparecem constantemente como sinônimos e é possível e corriqueira a intercambialidade em diversas situações. Peirce (1977, p. 46) postula:

um signo, ou representámen é aquilo que sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria, na mente dessa pessoa um signo equivalente ou um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado denomino interpretante do primeiro signo. O signo representa alguma coisa, seu objeto.


Ou seja, o signo ou as representações são “um primeiro que põe um segundo, seu objeto numa relação com um terceiro, seu interpretante. Em sua forma genuína, o signo é a relação triádica existente entre um signo, seu objeto e o pensamento interpretante” (PEIRCE apud BACHA, 2005, p.8) logo, não podem ser separados os objetos, das representações que temos deles como palavras, desenhos e a imagem mental em nossas mentes. Um exemplo dessa relação é a distinção feita entre banheiros


masculinos e femininos por imagens. A diferença entre a imagem dos dois bonecos geralmente é feita pela adição do equivalente a uma saia no boneco que se refere ao banheiro femino. Esse é um signo que representa de forma simplória as mulheres (seu objeto) em nossa sociedade, mas para isso ele deve existir em um contexto onde usar saia seja característica exclusivamente feminina, ou seja, o signo (o boneco de saias) do objeto mulher só é entendido se o interpretante estiver dentro da sociedade cuja singularidade “só mulher usa saia” seja verdade. Em uma sociedade onde tal verdade não é absoluta um interpretante que se deparasse com tal signo poderia não compreendê-lo em seu motivo segregador: “aqui só entram mulheres”.

Peirce identificou outras ramificações triádicas e as dividiu para facilitar a análise das representações “quanto a sua natureza material própria; quanto a sua relação com o objeto e quanto a sua relação com o interpretante” (BACHA, 1997, p. 58). Nos parágrafos seguintes será exemplificado resumidamente essas divisões utilizando como base o estudado por Santaella (2002, 2008), Bacha (1997, 2005) e Walther-Bense (2000).

Segundo Bacha (1997, p. 58) a primeira divisão é a do signo em sua “qualidade em si, independente de qualquer outra coisa, isto é o signo na sua Primeiridade”: que seriam os quali-signos; sin-signos e legi-signos. Para Santaella (2008) quali-signo é a qualidade intrínseca do signo. São as cores, formas, texturas. Já os sin-signos são o singular no signo em relação existencial com seu objeto. Walther-Bense (2000) cita como exemplo uma palavra determinada em numa linha de uma página de um livro, mesmo que esse tenha dez mil exemplares. E legi-signo, algo como uma convenção, uma lei para com o interpretante. Walther-Bense (2000) exemplifica que legi-signos são os signos segundo as normas, seriam as letras do alfabeto de uma língua, os signos matemáticos, sinais de trânsito entre outros.

O signo em relação a seu objeto, a secundidade, se divide na tríade: Ícones, Índices e Símbolos. Resumindo o apresentado por Bacha (1997, 2005), essa informa que se um signo for um quali-signo na primeiridade ele será um ícone e representará seu objeto em função de suas qualidades, tendo as mesmas características que o objeto, essas que ele continuaria a ter mesmo se o objeto não existisse. Exemplificando, nas palavras de Walther-Bense (2000, p. 15) “são signos icônicos, por exemplo, os retratos, os padrões(...), figuras, as formas”. Se o signo for um sin-signo, vai estar conectado a algo singular ou conjunto de singulares, seu objeto está fora do signo e é diferente dele. Neste caso, o signo funciona como um índice desse objeto, ligado por proximidade não por semelhança. Temos como exemplo o caso citado das separações dos banheiros. Finalmente, se o signo for um legi-signo, ele será um símbolo, algo que se constitui como signo, porque é entendido como tal por uma lei ou convenção da qual é portador.

A mesma relação triádica ocorre quando o signo é relacionado ao interpretante. A segmentação é feita por rema, discente e argumento. Um rema é um signo que é interpretado como representante de alguma qualidade que poderia estar encarnada em algum objeto existente. O dicente é um signo interpretado como propondo e veiculando alguma informação sobre um existente; e o argumento é um signo interpretado como um signo de lei, regra reguladora ou princípio guia (SANTAELLA, 2008).

Expostos os preceitos da semiótica peirceana, no próximo item serão exibidos os resultados do encontro da semiótica com os textos do livro SINTOMAS de Renan Peres.



3. Os signos de Sintomas


Sintomas, como bem delimita os prefácios ( De Jorge Verly e de Guilherme Medeiros ) que lhe acompanham a primeira edição é um livro imerso no diálogo entre vida e morte, o sujeito pós-moderno, e os tipos de amor.

Diferente de analisar os poemas que eu mais me identifiquei ou os já analisados nos prefácios, ou ainda aqueles que carregam o sentido do livro; neste projeto de artigo, fixarei me em usar do destrinçar dos signos, que me permite a semiótica pierciana, aos poemas nos quais uma leitura primeira não foi possível de extrair o significado. São eles, para minha leitura, os poemas da página 45 e 87.

Mas porque motivo me preocupar tanto com o significado dos poemas para mim, o leitor. Bom,

Eu percebi que em Sintomas o autor quer no emergir no que os signos representam para nós os leitores, quer no jogar nos SINTOMAS, que eles trazem em nós, seus símbolos e argumentos. Eu usei, portanto, a semiótica como filtro de análise estrutural da minha leitura. Em alguns poemas não importa tanto a forma poética (objeto), o signo, mas sim o representante e a relação com quem o lê.



3.1 Analise do poema da página 45


Eis o texto:


desafinado tom de resistência


a voz e a máquina

com copa de árvore frondosa

na cabeça, neurônios metálicos

juntas com parafusos

estrutura óssea à prova de violações

para diante

apresenta identificação

ser humano do fim do mundo

árvore cheia de frutos industriais

não necessita liquidação

a voz que, antes, da garganta

não chegava aos ouvidos

agora é eletrônica incrementada

de alcance a toda compreensão

e a máquina, que sob uma árvore

tenta, como parasita, se erguer

sem depender de hospedagem

não consegue perceber

que num dia seguinte

há de ser cortado o mal pela raiz



Dividi este primeiro poema em cinco blocos de sentido nos quais identifiquei os signos e suas relações triádicas diversas, entre representante, objeto.

Para exemplificar segue abaixo o que foi feito com o primeiro bloco: o título. O resultado esperado era responder o que significa, afinal “Desafinado tom de resistência”.




Para tentar identificar quem é esse observador, fiz a leitura dos signos do segundo bloco, os cinco primeiros versos. Assim, cheguei a seguinte conclusão da análise dos signos: ele expõe um sujeito, a criação indefectível a prova de falhas, fraquezas e sintomas acarretados pelo tempo, ( dor nas juntas, nervos fracos, ossos quebradiços). Ou seja, o que determina como “desafinado o tom de resistência” é o tempo. Este é o quem.

Cheguei então as seguintes conclusões, após essa análise:

Os cinco blocos de sentidos nos apresentam uma relação da vida e daquilo que o ser humano identifica como máquina, essa relação se faz dentro do tempo.

Uma máquina, com tudo aquilo que “o ser humano do fim do mundo” incrementou para que ela subjugasse as falhas e fraquezas dos neurônios, ossos e juntas que o tempo corrói, vem, na cena do bloco 2 e 5, parasitar, da árvore frondosa, a possibilidade de se erguer à vida e ao tempo. MAS “num dia seguinte”, penúltimo verso do bloco cinco, o tempo, que tudo dá o sintoma, vem à justiça e corta o mal da máquina, que tenta se separar da vida, pela raiz. Ou seja, sem argumento, temos nesse poema a defesa de que, não há nada que resista à passagem do tempo e nada vivo que não necessite de outro, que não parasite para se erguer. Nada passa ao tempo, o observador, nem a vida natural, nem a vida artificial. Nada vence aos seus sintomas, muito menos quem subjuga e parasita.

Ai sobra a seguinte pergunta:

Mas todos nós, de certa forma, não parasitamos?



3.2 O poema da página 87 e 89


Eis o texto:


como as árvores se portam

quando seus algozes se confinam


é recurso da linguagem

que na sua estética mais engenhosa

há de ser, um dia, caber


Poema sem título, e que, coincidentemente, possuí “árvore” entre seus signos, contudo, o signo se apresenta de forma diversa neste poema.

Segue-se abaixo o mesmo destrinchar realizado com o poema da página 45. Segue análise do primeiro bloco e suas as relações entre os signos, objeto e representante.




Creio eu, o signo do rizoma (conceito como se apresenta na filosofia de Deleuze e Guattari), daria mais conta dessa personificação que a árvore, pois, apenas as alianças conduzem a relação engenhosa de um se colocar no lugar do outro, que é o agenciamento para produzir singularidades, estar no meio. Um rizoma não está no inicio nem no fim, mas no meio.

Pois bem, a constatação de que as relações de agenciamento entre as singularidades dariam mais conta que as relações de ordenamento, inicio, meio e fim é a conclusão que cheguei comparando também o poema da página 87 com o poema da página 89 ( já que não há título, tenho a liberdade de unir os dois em uma interpretação unida, mesmo se tivesse eu tenho essa liberdade, beijos). O poema 89 é o que se segue:



É preciso interromper

o fluxo normal das coisas.



A seguinte conclusão pode ser extraída com os poemas 87+89 unidos: é preciso parar de apenas considerar o ser e passar a considerar diversidade, as singularidades.



4. Conclusão


Sintomas nos mostra as reações adversas de nossa situação contemporânea emergencial e adoecida. Os signos se escondem e se perdem, mas nas suas relações é ainda possível encontrar o caminho para o qual apontam, mesmo sem recorrer a crítica genética e ao irresistível anseio de perguntar ao autor. Os poemas e suas imagens


poéticas valem por si.

Todos os poemas analisados neste humilde artigo fazem parte de um divisão do livro intitulada de “Poemas de amor pagão”. O que não pode ser compreendido de forma isolada é muitas vezes compreendido de forma conjunta nas relações e argumentos que apontam para a conclusão que cheguei , quanto a mensagem argumentativa dos signos dos poemas:

É preciso, quando tratamos de poliamor, deixarmos de lado o sujeito, o fluxo normal que considera um dar e receber, e preferir as interações nas quais todos usufruem do bem. Preferir o que produzimos juntos. É nisso que há de se um dia caber nesse sonho, nessa poesia.



5. Referências


BACHA, M. L. A teoria da investigação de C.S.Peirce. 1 ed. São Paulo: CenaUn, 1998.

______. Semiótica aplicada ao marketing: a marca como signo. In: 29º ENANPAD, 2005, Brasília. Anais eletrônicos do XXIX ENANPAD. Disponível em: <http://www.anpad.org.br/diversos/trabalhos/EnANPAD/enanpad_2005/MKT/2005_MKTC1263.pdf>. Acesso em: 03 mar. 2016.


ECO, U. Tratado geral de semiótica. 4 ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.


PEIRCE, C.S. Semiótica. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1977.


PERES, R. Sintomas. Vitória: Pedregulho, 2020.



SANTAELLA, L. Semiótica aplicada. 17 ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.


______. Teoria geral dos signos: como as linguagens significam as coisas. 1 ed. São Paulo: Cengage Learning, 2008.


WALTHER-BENSE, E. A teoria geral dos signos. 1 ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.







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