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Preto faz pão?


Eu não tenho nenhuma dúvida de que distúrbios alimentares têm relação com o estilo de vida urbano no qual temos pouco tempo para planejar, preparar e comer comida. Estou pensando aqui comida como sinônimo de alimento, aquilo que te alimenta, te nutre, te fortalece nas diversas dimensões da vida. Invisto uma parte significativa da minha rotina com planejamento de compras (o que comprar, onde comprar, considerando locais mais baratos, relação com fornecedores, cardápio variado, etc.), organização, armazenamento e preparação de comida para mim e para minha família. Tempo que eu poderia estar lendo ou dormindo. Um dos trabalhos especializados não remunerado para o qual eu me dedico.

Incluí nessa rotina fazer pão às sextas-feiras. No último domingo iniciei o cultivo o meu fermento natural. Ele só ficará pronto provavelmente na quarta-feira da próxima semana. Dez dias no mínimo de cuidados diários para um dos ingredientes usados no preparo do pão de fermentação prolongada (em média 16 horas). Um investimento de doze dias para preparar um pão que será brutalmente devorado em 36 horas, no máximo. Depois que me dei conta do meu empenho na feitura dos meus pães, passei a comê-los com mais parcimônia. Meus pães carregam o meu axé.

Eu decidi fazer pão porque li uma matéria que anunciava a “pãodemia”. Segundo o texto, as pessoas começaram a se aventurar na cozinha durante a pandemia e o pão havia sido o alimento eleito pela maioria dos iniciantes. Dentre os motivos que mais apareceram nas matérias que eu li, (1) o tempo de sobra sempre estava como primeira opção e em destaque, mas tinha também (2) o receio de ir à padaria diariamente, (3) a necessidade de ocupar o tempo aprendendo algo novo e (4) a busca pelo prazer gerado nas atividades manuais. A minha inquietação foi tanta que um texto me levou a outro. Li matérias afirmando que, no início do mês de abril, a procura por receitas de pães cresceu 300% nos sites de buscas da internet e que canais especializados em pães em sites de vídeos aumentaram significativamente o número de inscritos no mesmo período. Uma matéria chamou muito a minha atenção pois afirmava que empresas especializadas na venda de farinhas de trigo importadas já estava com estoque em falta de algumas marcas específicas e que as farinhas de trigo nacionais estavam sumindo até das prateleiras dos supermercados pequenos e padarias de bairro. Fui conferir em meu bairro e era verdade, não tinha farinha de trigo na prateleira da padaria e nem previsão de reabastecimento de estoque.

Aonde eu estava que não vivia a “pãodemia”?

As matérias que li eram sempre ilustradas com fotos de mulheres ou homens jovens, descolados e brancos em suas cozinhas planejadas com eletrodomésticos na cor prata.

E a minha indignação diante de uma realidade tão distópica me fez questionar: preto faz pão?

Essa é uma pergunta pertinente porque eu sou uma mulher negra, cuido da alimentação de todos na minha casa e meu período de isolamento social até aquele momento estava num ciclo violento de angústia com a realidade em si e frustração por não conseguir dar conta de tudo sem minha rede de apoio. Cuidar de mim, do meu filho pequeno, da limpeza da minha casa e das minhas leituras do doutorado me consumiam enquanto tentava entender como viver com mil mortes diárias por um vírus cuja taxa de letalidade é de 2%.

A pressão pelo retorno da economia foi tanta que pouco a pouco o comércio voltou a abrir. Primeiros foram os serviços essenciais. Importante registrar que em muitos municípios brasileiros o serviço das empregadas domésticas foi classificado como atividade essencial. Para mostrar que o nosso recente passado escravagista segue como ferida aberta ainda latejando. Dramas vividos por mulheres como a empregada doméstica de 63 anos (cuja identidade não foi revelada para imprensa) que foi o primeiro óbito por covid-19 no estado do Rio de Janeiro após se contaminar cuidando dos patrões infectados numa viagem de férias. Ou a situação de Mirtes Renata, empregada doméstica, que, obrigada a trabalhar durante a pandemia, foi acompanhada do seu filho Miguel de seis anos, em Recife-PE. Mirtes Renata passeava com os cachorros da casa quando foi surpreendida com o filho despencando do nono andar após ser deixado sozinho num elevador por sua patroa – uma imagem aterrorizante veiculada nos telejornais diurnos. Todas mulheres negras, como eu. Sem rede de apoio, como eu. Mas que não tiveram as oportunidades de estudo que eu tive.

Os bancos cujas filas para recebimento do auxílio emergencial não param de crescer. Os restaurantes funcionam com serviço delivery, take out e com a quantidade de mesas reduzidas no salão. Os shoppings reabriram. E as padarias nunca fecharam, mesmo aos domingos. Está tudo aberto e funcionando. Os que insistiram numa dicotomia absurda entre economia e vida não conseguem explicar nem a recessão econômica nem a perda das noventa mil vidas ao final de mês de julho.

Na padaria do meu bairro, a maioria dos funcionários são negros. O padeiro, que posso ver pela janelinha de vidro enquanto me sirvo, também é. Preto faz pão sim. Sempre fez. Às quatro horas da manhã chega à padaria para garantir o pão quentinho em nossas mesas todos os dias em meio à pandemia. Como temos receio de ir à padaria, o pão chega pelas mãos do motoboy, também negro, acionado pelo aplicativo de entregas.

Sempre que deparo com uma realidade aparentemente positiva na qual não sou representada, me pergunto o porquê, e se constato que há uma questão racial implicada, eu me oportunizo essa experiência. Esse é um movimento consciente de resgatar a minha humanidade roubada diariamente pelo racismo. Eu também quero experimentar o bom, divertido e humano, portanto.

Durante a pandemia, o racismo não nos deu trégua: os jovens negros seguem assassinados pelas polícias na guerra ineficaz contra as drogas pelo Estado nas comunidades das metrópoles brasileiras; também são os homens, negros e pobres as maiores vítimas por covid-19. Nossos homens pretos em qualquer idade morrem por falta de ar. A ampla divulgação do vídeo no qual vemos o assassinato brutal de George Floyd, um homem negro norte-americano, por um policial ajoelhado em seu pescoço, não deixa dúvidas de que mesmo quando suplicam “eu não consigo respirar”, têm como resposta a indiferença que mata.

Cabe as mulheres negras viver o luto. O racismo tenta reduzir a nossa experiência à dor.

Como mulher negra vivendo a pandemia, subverto esta ordem reservando momentos para experienciar o prazer simples (e também revolucionário) de estar acompanhada de meu filho. Sovar pão é terapêutico. Garante farra para ele enquanto oro silenciosamente para que mulheres como Mirtes Renata (mãe de Miguel Otávio), Rafaela Matos (mãe de João Pedro Mattos, morto dentro de casa durante uma operação policial na região metropolitana do RJ) e muitas outras colocadas no anonimato encontrem paz. Da minha experiência de fazer pão, uma aprendizagem que ficou é que não há como ignorar o fato de que são os nossos corpos os primeiros a tombar. Não é possível viver o que agora chamam de “novo normal”.

Brasil, 31 de Julho de 2020

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Bárbara Maia Cerqueira Cazé é Pedagoga pela Universidade Estadual de Feira de Santana (2007), Mestra em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (2015) e doutoranda em Educação pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Idealizadora e Coordenadora o Cineclube Afoxé. Contato: barbaracaze@gmail.com.

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