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  • Editora Pedregulho

Leia um conto do livro "O baião que a gente não dançou", de Bernados Ramos Murilo



BORBOLETAS


Praia, brisa e lua cheia. T’aí a combinação perfeita pra uma noite de forró. Saltei do ônibus só na expectativa. Afinal, chegava mais um típico sábado no K1.


Pulsando forte como uma zabumba, atravessei rua e estacionamento, onde tinha mais gente do que carro. Aliás, para onde quer que olhasse, se via uma multidão pelo calçadão da orla, garrafas, copos de catuaba pelo chão e a cabroeira se espremendo no quiosque ao som de Black do Acordeon. Normal, assim sempre rolava aos finais de semana quando a praia de Camburi era o ponto de encontro para a galera de Vitória se esfregar no forrozinho.


Próximo ao K1, ainda pelo calçadão, já dava pra contemplar centenas de casais debaixo da tenda. Giros, chutes e colisões feito carrinhos de bate-bate.


Um paraíso infernal, lindo de se ver.


Resolvi marcar no carrinho de Maicon, uns trinta metros do forró, e tomar algumas catuabas a fim de me preparar para mais tarde.


Sim, como de costume, depois das três da matina, o quiosque ficaria na medida certa da maldade em que Black emendaria aquelas sofrências maravilhosas. Seria a minha vez de arrochar nuns xotes até o dia clarear (e pegar o sol com a mão), como um forrozeiro que se preza.


No K1 tinha dessas coisas. Natureza, forró e chamego bagunçando nossos sentidos como em nenhum outro lugar (Itaúnas que não me ouça).


A lua gigante e amarelada observava tudo de boa. Algo no ar dizia que a noite prometia. Isso me animava a tomar ainda mais as biritas de Maicon que, contrariando sua natureza ambulante, pedia para eu pegar leve no álcool, mas que eu nunca o escutava.


De repente, parou um churrasquinho na nossa frente. Não pensei duas vezes, pedi logo uns três.


“Molho e farofa?”, perguntou o cara do churrasquinho.


“E existe churrasquinho sem molho e farofa?”, pergunta besta se responde com outra pergunta besta. Rimos.


Assim, sem dispensar complemento algum, estava pronto para aguentar a madrugada. E ela foi passando rápido.


Aos poucos o fluxo foi diminuindo no quiosque até chegar aquele momento perfeito em que a pista ficara no grau para os forrozeiros com, digamos, mais malandragem. E um bom malandro sabe a hora de atacar. Modéstia à parte, essa tática eu sempre soube usar com maestria.


Foi pensando assim que subi os dois degraus triunfante. Para minha alegria, Black anunciou “a sequência da noite”. Sem sacanagem, não deu nem tempo da sanfona resfolegar no instante em que ela surgiu ao meu lado. Morena jambo, cachinhos acastanhados e olhos verdes. Combinação mortífera num vestido longo, florido. Me olhou de um jeito que eu saquei logo. Não disse nada, apenas ergueu a sobrancelha e balançou a cabeça tão suave quanto seu sorriso.


Era a guria mais linda da noite e eu não conseguia imaginar a sorte que tive naquele momento.


Nossos dedos se tocaram, senti uma descarga atravessar cada nervo do corpo. A hora mais aguardada da noite. De mãos dadas, caminhamos para o canto do quiosque. Batia uma brisa gostosa no momento em que abracei seu corpo. Achei incrível o fato dele se encaixar perfeitamente nos meus braços. Ela colou o rosto. Ficamos bochecha com bochecha. Perfume de flor no cangote, me deixou inebriado. Por mim, aquele instante não se acabava nunca.


Balançava delicadamente de um lado para o outro. Seu corpo me seguia na maior facilidade. Parecia que nossos troncos e membros existiam única e exclusivamente para dançar xote por toda a eternidade.


O que é a natureza? Tudo estava maravilhoso, o momento perfeito. Até as borboletas batiam asas na minha barriga como se bailassem em plena harmonia. Batiam tanto que chegava a incomodar.


O que era aquilo? O suor começou a descer. Normal, quando se fica mexendo colado numa morena daquelas. E ela me parecia bem disposta na dança, se entregando completamente à minha cadência. Arquitetei qual seria a melhor estratégia para conseguir um beijo.

Mas, não!


Algo não deixava pensar direito. As borboletas cada vez mais inquietas. Se misturavam a catuaba e churrasquinho… molho e farofa. “Fodeu”, pensei. No grave da zabumba tudo dentro estremecia feito um terremoto seguido de tsunami. O som do triângulo martelava na cabeça como se dissesse: “ixe, ixe, ixe”.


Sinal vermelho.


Uma morena nos meus braços, a sequência arrastada que não se acabava nunca e eu, um matuto aperreado, sem saber o que fazer. Logo pensei em pedir pra parar a dança, soltar alguma desculpa, falar do celular tocando e que era importante porque alguém da família estava no hospital.


Não ia fazer diferença. Eu seria o cara a dispensar a morena no xote.


Ficou pior. Sua mão roçava a nuca, nossos corpos ainda mais colados. Ela cantarolando baixinho nos meus ouvidos um dos sucessos de Black do Acordeon: “então vá, bata a porta, não olhe pra trás…”. E eu só pensava na porta debaixo se abrindo até ficar insuportável.

Molho, farofa e catuaba se digladiavam numa guerra infinita. A barriga se transformara num grande liquidificador pronto para explodir a qualquer momento.


Eu tinha algo a fazer. Não seria o forró inteiro e a morena a assistirem o chamado da natureza.


Repentinamente, parei o passo, arregalei os olhos e gritei:


– Olha o arrastão!


Foi tudo num instante.


Ela me largou. Todo mundo que dançava começou a correr, gritar, espernear. Um forrobodó dos infernos. De uma hora para outra, já não tinha Black, forró, chamego. O quiosque parecendo o retrato de dentro da minha barriga. Mesas e cadeiras reviradas, cacos de vidro e devastação total.


Corri, corri como nunca pelas areias de Camburi até chegar no matinho perto da água, abaixar as calças e sentir a natureza agir.


Naquele segundinho em que as coisas finalmente se atenuavam, reparei mais uma vez na lua majestosa nos brindando com sua forma no céu estrelado. O caos cada vez mais longe. Um ventinho gostoso acariciava a pele me deixando arrepiado.


De uma hora para outra, tudo voltou a ficar bem. Era somente eu contemplando praia, brisa e lua cheia.


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