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  • Editora Pedregulho

Eu escrevo pra dizer

Atualizado: 8 de Ago de 2018

Dissonâncias, de David Rocha, será lançado dia 5 de outubro, em Vitória/ES.


Octavio Paz sentenciou, em O arco e a lira, que A poesia é fome de realidade. E nesse viés está a escrita de David Rocha, que dá forma e torna palpável o seu pensamento. Para o autor, a intenção do texto, no papel, é dialogar com o outro, estender a mão ao leitor e compartilhar ideias, possibilidades de entendimentos, de reflexão e algumas provocações.

Dissonâncias, terceiro livro de David Rocha, é a poética do cotidiano na concisão dos versos. Com simplicidade, os poemas afrontam um mundo cada vez mais intolerante e apresentam a face de uma poesia que resiste de maneira irônica, risível e sarcástica.

Os poemas de Dissonâncias têm um tom leve, mas, ao mesmo tempo, são certeiros quando tratam de questões muito importantes como o preconceito, a religião e a política, em provocações como “Se no final da folha Deus não vier de colete / Pode ser que não haja julgamento nenhum” (p. 64) e “Quanto vale um pão/ Para um mendigo farto de migalhas na mão?” (p. 67). Perguntado sobre isso, o autor nos responde:

Quando moço eu tinha uma ideia equivocada sobre a poesia. Imaginava que a poesia, para ser poesia, devia falar de amor e ter rima. Aos poucos fui conhecendo melhor, lendo mais e entendo que a poesia, bem como a literatura, pode muito mais que isso. Eu escrevo pra dizer. Geralmente há um tema, um acontecimento ou mesmo um movimento banal das ruas que fica martelando na minha cabeça. Uma imagem, uma palavra, um gesto... Então escrevo sobre isso, escrevo tudo e o quanto eu quero, depois trabalho esse texto, corto quase tudo e tento deixar apenas o que julgo fundamental, apenas as palavras precisas. Esse é meu exercício e meu desafio na poesia: ser breve. Acho que a ironia é o que me permite alguma sociabilidade. Gosto muito da poesia do Pessoa, que diz: Todas as horas faço gafes de civilidade e etiqueta, a vida social é complexa pra minha fraqueza de nervos. Acho um barato. A ironia encobre certo desconserto, algum mau humor, uma espécie de descontentamento. Desconfio que a ironia presente nos meus textos sejam raivas disfarçadas.

Se escrevo sobre o que vejo, não é possível manter leveza permanente. Moro num dos estados com maior índice de feminicídio do país, num dos países mais violentos do mundo, onde se mata pobre e preto às pencas; temos um DOI-CODI ativíssimo ainda hoje e é preciso falar sobre isso.

Além de todos os problemas sociais e de uma corrupção política absurda, que às vezes parece uma ficção, temos um cenário assustador de intolerância religiosa e uma bancada evangélica que reforça essa intolerância e presta um desserviço à população. A influência religiosa na política brasileira atual é desastrosa e abre espaço para ascensão de propostas e de políticos bizarros. Todos devem ter respeitados o direito de exercer livremente a religião, a crença e a espiritualidade, que é algo que considero divino, mas a apropriação desses elementos para alimentar discursos moralistas e preconceituosos é o que há de mais perigoso às liberdades individuais.

Então temos isso tudo, uma caretice que não permite discutir temas sérios e relevantes, vivendo na chamada sociedade do conhecimento, mas com tabus da idade média.

Entramos num lugar muito importante de conversa que é a influência da Literatura no debate sobre essas questões, o baixo índice de leitura no nosso país e a forma como se dá a distribuição dos objetos culturais. David, sobre isso, foi sensato:

Não sei até onde a literatura pode contribuir. Entre as artes, a literatura não possui o mesmo alcance da Música ou a mesma facilidade de absorção do Cinema. As pessoas leem pouco e as pessoas mais vitimadas pelo estado leem menos ainda. Acho muito difícil falar do que podemos fomentar politicamente na literatura porque não sei até onde vamos, até onde nossas mãos alcançam como escritores não lidos, como escritores que moram e produzem no Espírito Santo. Como escritores marginais podem influenciar no debate? Digo marginais porque, com algumas exceções, todos os escritores capixabas o são, pouquíssimos estão no mercado, são consumíveis e ganham algo pelo que escrevem. Mas talvez contribuamos indo além do texto escrito, fazendo uso literal da voz e do corpo. Há uma geração de escritores novos que faz isso muito bem, estão em bairros periféricos, escolas e mandam suas mensagens. Este me parece um modo mais eficaz e forte de debater os temas sociais.

É preciso um novo olhar sobre tudo, sobre o automatismo dos gestos. E dessa maneira o autor nos convida a pensar os acontecimentos mais singelos e a romper o asfalto feito feia flor que não se enverga aos calcanhares duros da indiferença e da farda.   

Abaixo, três poemas do livro.





Sobre o autor

David Rocha é velho bibliotecário, desse tipo que nasce com oitenta e poucos anos. Em permanente contato com livros, não resistiu à tentação de criar sua própria literatura. Autor de Folhas de Castanheira (Infantil) e Imperfeições (Poemas), faz em Dissonâncias a sua terceira entrada nas prateleiras.


Dados técnicos

ISBN: 978-85-67678-26-9 Tamanho: 13x19cm Edição: 1ª Ano: 2017 Idioma: Português Número de Páginas: 80

Ilustrações de Marcos Marcelo Lírio

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