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Entrevista com Hugo Estanislau


"Não tem o Alfred Hitchcock que está sempre em seus filmes? É isso. Eu me sinto melhor se eu estiver perto dos personagens. É como se eu atuasse com eles e não apenas dirigisse". É dessa forma que o escritor Hugo Estanislau cria seus personagens, se colocando de, alguma forma, em suas histórias também.


Formado em Letras pela Ufes, premiado pelo prêmio Ufes de Literatura em 2014 e autor do livro "Boneca: atrás da feição oCa" (2016), o escritor revela alguns dos seus segredos de escrita e detalhes do novo livro, que será lançado em breve pela Pedregulho. Confira em nossa entrevista:



1 - Como costuma ser o seu processo criativo? Você tem uma rotina ou escreve apenas em alguns momentos em que se sente mais disposto?

Não me mate por isso, mas eu não acredito muito em inspiração pura e simples, algo que vem do além... Escrita, pra mim, é um esforço e um trabalho. Quando eu estou produzindo eu crio uma rotina de escrita e de leitura. Acabo tendo dois empregos e fico mortificado. Tento orientar minha criatividade, lendo, pesquisando, desenhando e relaxando também. Geralmente, eu crio etapas e sigo elas até considerar o projeto pronto. Quando a inspiração vem sozinha eu anoto e guardo por muito tempo, mas quase nunca as ideias vindas da inspiração prestam sem que sejam muito, muito polidas.

2 - No 'dica do escritor', você disse que gosta de se espelhar em um dos personagens para ficar mais fácil de criar a história e fazer as atitudes do personagens mais reais e humana. Queria que comentasse um pouco mais sobre essa técnica.

Eu sempre fiz isso e nunca percebi. Não tem o Alfred Hitchcock que está sempre em seus filmes? É isso. Eu me sinto melhor se eu estiver perto dos personagens. É como se eu atuasse com eles e não apenas dirigisse. Assim eu ajusto o foco narrativo e a verossimilhança. Por falar nisso, minha leitura atual é, justamente, um livro de arte Dramática de Stanislaviski e eu percebi muita correlação com criação literária e, ao mesmo tempo, percebi que atuo junto com meus personagens pelo prazer de sentir, com eles, as situações mais inusitadas.

3 - "Boneca: atrás da feição oCa" é seu primeiro livro de contos. Por que você escolheu usar a boneca, e seus múltiplos sentidos, como metáfora para abordar questões LGBTQIA+?

O nome boneca veio do processo editorial. Eu estava produzindo meu primeiro livro com a Pedregulho (porque boneca é o segundo livro, não oficialmente; pois eu tenho um livro que nunca saiu - tipo o Quiche, do João chagas? Foi isso.) e eu fiquei apaixonado pelo termo boneca, usado para as prévias editoriais dos livros, o que eu não sabia por inexperiência. Eu já tinha contos em que bonecas apareciam e, então, decidi usar a boneca como signo do projeto. Acho q todo gay afeminado já foi chamado de boneca na vida. O livro trata do processo de odiar ser chamado assim e, depois, amar ser chamado assim. A boneca, veja: é até um termo do pajubá para aids! Os gays tem muito contato com o ato de brincar de boneca e brincam com estar perto do feminino. Por isso, escolhi colocar a cara pra bater e chamar de boneca. Jogar minhas inseguranças pros outros. Falo assim pois eu pensei em deixar de fora o termo boneca no título, e colocar apenas "por trás da feição oCa". Mas não: Continuei. Quem tem um livro chamando boneca? Uma menina de quinze anos? Beijos, aceitei. Aceitei o que a literatura me pedia e chamei de boneca. Ou seja, boneca ( que é um livro de contos, a meu ver, de leitura difícil) faz parte de um processo interno que eu tive de vencer pra estampar a boneca na minha cara e dizer: adoro ela.

4 - Vivemos um momento político e social muito difícil com diversos ataques à democracia e o avanço de ideias de fascistas. Como você enxerga o papel da literatura na luta antifascista e contra a homofobia também?

Literatura é transgressão. É uma arte de ataque. Eu não acredito em literatura artística que seja de direita ou de situação e, a acho chata. Para mim, o papel da literatura é sempre questionar e criticar a realidade. Mesmo quando leva o leitor para um mundo de fantasia, a literatura está criticando. Para lutar contra o fascismo precisamos sair de nossa bolha e adentrar o universo do senso comum. Tentar chegar em mais leitores, mesmo que seja necessário agregar outras artes como cinema e teatro, usar a literatura como contraposto de nossa realidade. Homofobia e fascismo são fruto de ignorância e essa tem tanto medo de quem lê, ou não tem? Temos de resistir e continuar, pois quem nos lê ou quem segue a literatura precisa de um mundo diverso, não de uma estante cheia de biografias e autores estrangeiros de romance rosa.

5 - Sabemos que um livro novo está sendo finalizado e em breve vai sair pela Pedregulho. O que você pode adiantar sobre esse novo projeto?

Foi um livro que eu adorei fazer. Adoro maltratar meus personagens (sádico) e esse sofreu, tá? Um livro muito doído; para fazer e para ler. Ocupei papéis que não me agradam para tentar produzir uma experiência mais real. Enfim, depois que terminei (em 2018), tive de me analisar muito para entender o porquê de ter feito esse livro. No fim das contas, eu não posso falar muito, pois é um livro de mistério e tem gente que não gosta de spoiler. Mas, no fim das contas, o livro é uma mensagem para nós mesmos: não devemos nos apegar ao passado como se ele nos controlasse; como se fossemos uma folha pura e simples que recebe as manchas dele. Temos de fugir do egocentrismo e do romantismo piegas ao passado. Não somos o centro do filme. Não há nem filme rolando. Só a vida. E, muitas vezes, a gente pode cometer erros achando que é nossa responsabilidade salvar o mundo. Foi um grande desafio esse livro e foi muito interessante produzir. Mas é muito pesado e polêmico. Trata de violência parental, violência e abuso sexual, trata de aceitação da homossexualidade, homofobia... Eu adorei fazer e espero que os leitores sofram muito com esse personagem todo errado que é Edmar.


Entrevista feita pela jornalista e escritora Lívia Corbellari, idealizadora do projeto Livros por Lívia e responsável pela comunicação da Editora Pedregulho.


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