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  • Editora Pedregulho

Entrevista com Harding Peixe

Atualizado: 2 de Dez de 2019



"O último cidadão do mato", de Harding Peixe, começou a ser escrito em 2013, em uma expedição de pesquisa nas águas do Rio Paraconi (o Rio Nicorapa do livro), no município de Maués, estado do Amazonas. O lugar, circundado por floresta e com uma população ribeirinha viva e alegre (Eioca no livro), impressionou tanto Harding Peixe que ele não teve alternativa senão começar a escrever tudo o que viveu e observou de um barco, local onde morou durante pouco mais que trinta dias.

O lançamento aconteceu em Manaus e o livro está disponível em nossa loja virtual AQUI. Enquanto isso, confira a nossa entrevista com o autor:


Você é engenheiro florestal. Como a literatura passou a fazer parte da sua vida? 

Desde pequeno eu já lia bastante. Comecei a ler por volta dos nove anos de idade os livros da Série Vaga-Lume, principalmente os livros da escritora brasileira Maria José Dupré. De lá para cá sempre tive o hábito de ler livros, especialmente romances, que sempre me levavam para mundos distantes. A literatura sempre funcionou como um tipo de calmante para mim. Um outro fato interessante que também aconteceu comigo foi já na minha adolescência, quando eu vi minha mãe ficar quase cinco dias dentro do quarto lendo o livro "O reverso da medalha", de Sidney Sheldon. Aquilo chamou muito a minha atenção, era claramente a força da literatura expressa na sua melhor forma, quando a leitora não conseguia nem mesmo respirar sem ler a próxima página. Hoje, como engenheiro florestal, tenho que ler muitos livros técnicos e artigos científicos que não deixam de ser caracterizados como um tipo de literatura especializada. Mas, mesmo assim, nunca abandonei os romances. Sempre estou lendo alguma história, algum autor novo. Acho que isso é essencial para balancear não apenas a minha vida profissional, mas também a minha alma. 

"O último cidadão do mato" começou a ser escrito em 2013, em uma expedição ao Rio Paraconi, no município de Maués, no Amazonas. Como surgiu a ideia de romancear esse trabalho?  

Desde quando eu visitei a região Amazônica pela primeira vez, no ano de 2009, e posteriormente quando eu me mudei em definitivo em 2011, eu sempre fiquei bastante impressionado com tudo. Essa expedição no ano de 2013, quando eu fiquei aproximadamente 30 dias residindo em um barco de pesquisa, e algumas outras viagens à trabalho que eu fiz naquele ano, em especial, me marcaram muito. Eu era apenas um leitor ávido e nunca havia sentido uma necessidade tão urgente de expressar tudo aquilo que eu estava vivenciando. A forma que eu encontrei foi escrever o que de início seria apenas um conto e posteriormente, ao longo dos anos, se tornou o romance "O último cidadão do mato". A medida que os anos se passaram (seis anos no total) fui aprimorando o livro e acrescentando novas experiências na Amazônia e outras lembranças e ideias da minha cidade natal, que é São Paulo. O contraste entre as duas realidades é tão grande que usei como ingrediente para conceber e dar dinâmica ao livro. 

Você morou 30 dias em um barco durante essa expedição. Acredito que é uma experiência bem literária por si só, mas o que aconteceu de mais inusitado? 

Nessa viagem eu tive contato quase que diário com a comunidade que eu chamei no livro de Eioca. Ali, o choque cultural e de realidade me marcaram muito. O lugar também era muito especial, a paisagem era deslumbrante. Posteriormente, eu fiz outras viagens pela Amazônia que realçaram ainda mais as coisas que eu pude vivenciar em 2013, nesta expedição no Rio Paraconi. Pensando um pouco agora eu acho que só de estar na Amazônia é uma experiência inusitada. O acesso as coisas é diferente, a magnitude também. O tamanho dos rios é impressionante, a contagem do tempo também é diferente. Devido ao tamanho da região, por exemplo, muitas viagens são contadas em dias e não em horas como fazemos em outras partes do Brasil. Lembro de um dia especial nesta expedição que eu fiz no rio Paraconi. Eu havia voltado de campo (o trabalho consistia em medir algumas árvores num procedimento que chamamos de inventário florestal) e estava na comunidade de "Eioca" tentando fazer um telefonema de um telefone público (o antigo orelhão) conectado a uma antena de satélite, o único em dezenas de quilômetros. Ele mal funcionava e naquele dia não consegui ligar. Eu já havia perdido um pouco a noção de tempo e perguntei para alguém da comunidade que dia da semana era. A pessoa me respondeu que era segunda-feira. Pensei então na vida da cidade, aquela sensação de "O que será que os meus amigos e familiares estão fazendo agora?". Era fim de tarde. Na comunidade havia uma enorme quantidade de crianças brincando, nadando no rio, jogando bola. Alguns adultos conversando em um canto. Parecia um "típico dia de domingo". Mas era uma segunda-feira. A leveza daquele momento era impressionante. Minha noção de tempo, por um momento, desmoronou ali. Aquilo me marcou muito. 

O livro começou a ser escrito durante a viagem, como um diário de bordo? Ou só quando você chegou?    O livro começou a ser escrito naquela expedição mesmo. Ali escrevi os primeiros parágrafos. Pensei nos personagens e um pouco em como seria o enredo do livro. Quando voltei para cidade de Manaus, me "infectei" novamente pela rotina, o trânsito, os afazeres da cidade. Abandonei o meu trabalho por um tempo e passei três meses numa rotina insana escrevendo todos os dias dentro da biblioteca da Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Passei por algumas dificuldades financeiras neste tempo e vi que não seria possível viver de literatura, pelo menos naquele momento. Nos anos seguintes, já trabalhando de novo, segui escrevendo e melhorando o que eu já tinha escrito naqueles três meses frenéticos dentro da biblioteca da UFAM. De lá para cá foram seis anos aprimorando e reescrevendo o livro. 

Por que você trocou alguns nome no livro? Por exemplo, o Rio Paraconi virou o rio Nicorapa.   Ao final de algum tempo eu concluí que, mesmo que me dedicasse ao máximo em descrever tudo aquilo que eu vivi e tenho vivido na Amazônia, seria impossível decifrar essas experiências com exatidão. Afinal, eu estava escrevendo um romance, uma ficção. No livro "O último cidadão do Mato", a realidade e a ficção se misturam, formando uma nova realidade - que é realidade do livro. Por isso decidi fazer essa brincadeira de inverter as palavras como num anagrama. Concluí que o Rio Nicorapa do livro é o Rio Paraconi, e o Rio Paraconi é o Rio Nicorapa. O primeiro é inspirado no segundo, mas talvez nunca chegue a tocar plenamente o que a realidade me ofereceu de fato. 

Quais suas referências literárias?  

É uma resposta difícil porque talvez eu seja tendencioso com os autores que li nos últimos anos e que talvez estejam mais "frescos" na minha memória. Vou tentar citar aqui alguns autores mas tenho certeza que esquecerei citar alguns que foram importantes para mim. De autores estrangeiros, as minhas principais referências são: Mario Vargas Llosa; Gabriel García Márquez; Mia Couto; Émile Zola; Jack Kerouac; Dee Brown; Heinrich Harrer; Charles Bukowski e Herman Hesse. Dos brasileiros destaco como minhas referências: Maria José Dupré; Érico Veríssimo; Milton Hatoum; Patrícia Melo e Aluísio Azevedo.

Você adotou o pseudônimo de Harding Peixe por quê? O que significa para você?  


Esse pseudônimo surgiu quando eu fazia faculdade em Viçosa, Minas Gerais. Eu e um amigo fundamos um tipo de "movimento literário" chamado de "Contos da Floresta". Basicamente nós escrevíamos poemas e contos, imprimíamos e colávamos nos murais do prédio de engenharia florestal e em outros locais da universidade. Na primeira semana em que o "Contos da Floresta" foi lançado, vimos que não teria "graça" se as pessoas soubessem logo de cara quem estava escrevendo aqueles poemas e textos. Adotamos, então, pseudônimos. Eu "Harding Peixe", em homenagem ao meu avô, e ele "Emídio dos Santos", em homenagem ao irmão. Desde então, quando se trata de escrever poemas e ficção, adoto esse pseudônimo. 

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