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  • Foto do escritorEditora Pedregulho

cogitações sobre a poesia de marília cafe, até agora

por Renan Peres


O meu relacionamento com a Editora Pedregulho iniciou durante os anos de faculdade, quando descobri meu interesse em ler e estudar a literatura produzida no Espírito Santo. Adquiri um exemplar de Classe Média Baixa, do Wagner Silva Gomes, e um Opala Negra, da Marília em um Evento de Vender Livro que aconteceu na Rua Sete de Setembro, Centro de Vitória, e essas duas leituras foram as responsáveis por estabelecer o vínculo que hoje tenho. O livro do Wagner foi meu objeto de pesquisa por cerca de um ano e sobre ele escrevi um artigo científico, apresentei alguns seminários de pesquisa e aprendi os erros e os acertos do trabalho acadêmico. Esse trabalho me deixou em contato constante com a editora. Já o Opala me levou até Marília e, desde então, nos tornamos amigos.

Só que a leitura veio antes da amizade; comprei outros livros da Pedregulho no período em que as entregas eram quase todas feitas de bicicleta (muitos eu peguei na Praça Costa Pereira e no Centro Cultural Sesc Glória), indiquei títulos para muitas pessoas, emprestei vários deles, alguns nunca voltaram, e foi nesse movimento de divulgação do trabalho da editora e de incentivo à leitura que eu e Marília estreitamos nossa amizade.

Essa movimentação resultou em parcerias. Mais tarde fui convidado a escrever o texto de orelha do Lama. A essa altura eu já tinha lido o AmorS e trabalhava com os textos Sexta-feira 3 e Flash nas minhas aulas de Língua Portuguesa. Em 2019, eu convidei Marília para fazer o lançamento do Lama com estudantes do 6º ao 9º ano na EMEF Professora Iolanda Schneider Rangel da Silva, em Porto Canoa, Serra, e nesse período desenvolvi atividades com os textos Fofoca, Lama e Ciência. Esse contexto de leitura constante da literatura de Marília me proporcionou familiaridade com os temas abordados na sua prosa e a diversidade de interpretações possíveis para seus enredos finitos e “em aberto”, como estudantes gostam de dizer.

O resultado disso foi o convite para desenvolver um estudo dos contos já publicados e de outros, inéditos, que seriam publicados em Pretendo fechar os olhos assim que puder. A culminância do estudo é o extenso Cogitações sobre vida, morte e empatia nos contos de Marília Carreiro, prefácio do livro. Àquela altura, a escolha da palavra cogitações se justificou por essa característica finita e aberta que os textos possuem: por serem tratados assuntos cotidianos com verossimilhança, as narrativas possuem complicações súbitas e desfechos que, como o ritmo da vida cotidiana impõe, não encerram nada; quem lê, portanto, assume possibilidades para concluir cada enredo.

Desta vez, as cogitações serão sobre a produção poética de Marília, que ao publicar Atés (2021), seu quinto livro, teve sua estreia na poesia. Atés foi sucedido por Agora (2022). Este é o livro mais recente, o sexto, também de poesia. Ela assinou esses dois livros como Marília Cafe, que veio a ser uma parte da escrita de Marília Carreiro. E essa questão de nomes é bastante coerente com a proposta das obras poéticas, visto que, como já apontei em texto de orelha para o Lama, a morte é tema central da obra em prosa, ficcionalizada por meio da rotina burocrática, contraditória, das injustiças sociais, de elementos insólitos e absurdos, kafkianos, até. Nada disso dialoga direta e explicitamente com o texto poético, que versa sobre singelezas e afetos, o sentimento manifestado em sua forma mais viva, porém leve, as reflexões acerca do saber-se e do sentir-se alguém que não se apega às rotulações sociais, enfim. Em comum apenas o fato de que alguns textos poéticos desempenham ativamente a função de crítica sociopolítica.

Com 60 páginas, Atés é uma espécie de divisor de águas. Não somente pela mudança na assinatura do nome, mas também por todo o trabalho de linguagem que o texto poético proporciona e que não cabem na prosa por conta da intencionalidade que cada texto possui. Os 22 poemas refletem sobre a descoberta de si por meio das sensações que o amor leve proporciona. Nele, o eu-lírico feminino revela a natureza dos sentimentos e assume o papel político da liberdade individual: “impor fronteiras é limitar o que não se deve” (p. 17). Além disso, muitos poemas retomam assuntos universais que atravessam o cânone e as produções marginalizadas: a contemplação do Eu e do Eu em relação ao Outro; o existencialismo enquanto recurso para a construção da catarse; a concepção do sentimento em sua forma pura na representação da personalidade; o tempo como elemento fundamental para a arte poética; dentre outras abordagens possíveis.


a vida é simples e complexa

racionalizar embaraça tudo

[...]

vicissitudes fazem parte

o tempo é rei e manda

a tela aproxima ausência

as obrigações, as semanas

não sei quanto tempo faz


existe algo de sublime

quando o corpo não esquece (p. 31)


Agora tem 60 páginas e é dividido em duas partes: a primeira é formada por 10 poemas; na segunda são 9. Analisando sob uma ótica mais generalizante, o livro aborda a relação sujeito-mundo pelas vias da descoberta e da aceitação, de modo que isso implica na elaboração do autoentendimento e, consequentemente, da autoaceitação. Isso na contrapartida dos valores que predominam na sociedade patriarcal:


talvez seja um despedida

das formas como vi o mundo

de como o mundo me via até

agora


são tantas as coisas que me vêm à cabeça

enquanto flutuo em sentidos

[...]


me ver caminhar numa estrada que segue

infinita é um movimento

de anos

não posso ser o que disseram

sempre fui o que disseram

não aceitava até o momento que me vi


dentro de mim só existe o que sou

a multiplicidade de tudo que vejo e leio

as conversas que tenho

as ausências

os medos

a vontade

a definição que é

não se definir (p. 13-14)


A descoberta torna-se elemento catártico fundamental para a compreensão de Agora, pois é o meio para o rompimento com os padrões sociais por parte do sujeito poético: um eu-lírico feminino em processo de rememoração, no qual a descoberta do diferente, da diversidade, proporcionou ressignificar tudo aquilo que, conforme os julgamentos de valores de praxe, seria desconsiderado da normalidade. Importa destacar que nenhuma dessas descobertas teve o estranhamento como elemento constituinte; ao contrário, a cada novidade, a catarse se manifesta no reconhecimento de si naquilo que lhe é novo: “eu só precisava disso para nascer / como uma criança que é o que quiser” (p. 15); “ninguém impunha nada / tudo estava dentro de mim” (p. 19); “é muito tempo se dedicando / a uma afirmação do que se é / pra depois ser outra coisa // e tudo bem” (p. 24).

Alfredo Bosi sentenciou, em O ser e o tempo da poesia (2000, p. 163), que o “poeta é o doador de sentido”. Assim, ao colocar-se no lugar de reelaborar o passado por vias do texto poético a fim de ressignificar de normalidade tudo aquilo que era tido como impróprio e anormal, e não reconhecer nisso qualquer estranhamento, a mulher que fala consolida a sua voz contra o discurso da ideologia dominante. Seu discurso, de resistência, revela a falsa ordem social e refaz, por meio da reelaboração de momentos da infância, as “zonas sagradas que o sistema profana” (BOSI, 2000, p. 169).

O texto poético de Marília alcança essas zonas profanadas por meio da infância, em Agora, com uma voz que constrói, para o sujeito poético, um vínculo autobiográfico à medida que analisa episódios que lhe proporcionaram a descoberta de sua sexualidade e da sua própria maneira de gerir seus conflitos e seus afetos. Já em Atés nós desbravamos o tempo guiados por uma afetividade já descoberta e consolidada, que rompe os padrões da autoconsciência estática, que divaga sobre si sem nada concluir. Isso remete ao que sentenciou Bosi (2000, p. 167): “Autoconsciência não é paralisia”. Ao contrário, a poesia de Marília Cafe se propõe viva e consciente de seu movimento. Desempenha magistralmente seu papel cívico e político de recriar a materialidade do mundo e a diversidade das relações sociais com a transparência de quem está na busca constante do autoconhecimento. E marca, categórica, o posicionamento contrário ao patriarcalismo que a sociedade capitalista enraizou nas estruturas da sociedade.

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