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  • Foto do escritorEditora Pedregulho

Pedregulho entrevista Edson Luiz

Rapper lançará, em novembro, o livro Depoimento de um sem-teto





Bem-vindes a esta entrevista especial, na qual mergulharemos profundamente no universo do livro Depoimento de um Sem-teto. Este livro é uma poderosa coleção de dez raps e poesias que traçam a jornada de militância de Edson Luiz no Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), desde a ocupação Oziel Alves em 2015 até os dias atuais. Neste trabalho literário, Edson Luiz, um homem negro e periférico, utiliza sua poesia como uma ferramenta para denunciar as injustiças do mundo a partir de um contexto caracterizado pela falta de direitos e oportunidades, mas também como uma fonte de potência: a periferia.

Hoje, exploraremos como Edson se diferencia ao produzir sua poesia a partir da luta social organizada do MTST, tornando seus raps uma porta de entrada para a ocupação, uma assembleia, uma formação política, uma análise da conjuntura, um grito de ordem e uma voz dos acampados. Essa abordagem única nos permite enxergar o cotidiano do movimento transformado em rimas e batidas em sua música.

O mais notável é que, ao ouvir os raps e poesias de Edson, tem-se a sensação de uma voz coletiva que incorpora o universo de trabalhadores e trabalhadoras sem-teto que compõem o movimento. Este trabalho nos instiga à reflexão e nos impulsiona a lutar, eternizando a causa pela moradia digna e nos recordando que enquanto houver pessoas vivendo de favor, em habitações indignas, tendo que escolher entre pagar o aluguel e comer, a luta por moradia digna não pode parar. Acompanhem-nos nesta entrevista, na qual Edson Luiz nos levará a uma jornada pelo poder da poesia como instrumento de transformação social e voz dos que mais necessitam.



1. Como você começou no MTST?


Inicialmente para ajudar um sobrinho na construção de um barraco na ocupação Oziel Alves em Mauá em maio de 2015. Quando percebi a organização da luta por moradia, decidi fazer a minha e também lutar por dignidade.


2. De que forma a sua experiência no movimento influenciou as suas letras e músicas?


Assistindo as assembleias sobre a negociação e a conjuntura percebia-se que o tempo disponível para o acampado assimilar uma informação (25 min aproximadamente) e o tempo que o mesmo é exposto à ideologia do sistema (mais de 23h) era desproporcional. As poesias vêm dessa necessidade de ajudar na informação do nosso povo.



3. Como você acha que a música pode ser uma ferramenta de conscientização e mudança social?


A música, assim como a pintura, a dança, entre outras, é uma arte. As pessoas que se deparam com a arte param pra ver e sentir. O Hip hop traz também esta função, através do rap principalmente. O rap aponta, critica e denuncia as mazelas sociais. A realidade é colocada em cheque e nessa hora qualquer pessoa para e sente a mudança de paradigma.


4. Quais são as principais mensagens que você espera transmitir com este livro?


A luta por moradia e dignidade é longa. Nem todos tem essa disponibilidade para ir ate o final. Os que chegam ao final são os que realmente precisam. Neste sentido o livro trás a reflexão que enquanto se luta é possível fazer algo que alivie essa travessia com luta e disposição. Da pra aderir a uma turma e fazer formação, horta, educação de crianças, arte e cultura etc., de forma poética.


5. Há alguma música ou letra em particular que você considera a mais significativa ou que tenha uma história especial por trás?


Todas têm sua particularidade, mas se for pra escolher uma eu traria a musica Quem Atirou? Porque essa musica veio depois de uma agressão, um tiro, vindo de um condomínio vizinho à ocupação Povo Sem Medo de SBC. Esse tiro representou o ódio aos sem tetos e a Ascenção do fascismo no Brasil em 2017.

A letra veio como uma resposta ao monstro na beira da lagoa, contra os fascistas e o medo. Por isso Ocupação Povo Sem Medo.


6. Como o hip-hop e o rap, como gêneros musicais, se relacionam com a luta dos trabalhadores sem-teto no Brasil?


Esses gêneros musicais iniciam especificamente nas lavouras de algodão nos EUA quando os escravizados alinhavam o ritmo da produção com sons rítmicos entre determinados grupos de trabalhadores. Independente do modo de produção, os trabalhadores sempre foram explorados e maltratados. Como disse antes o rap é o único estilo musical que permanece firme às suas origens e comprometido em denunciar e questionar a realidade, em prol dos trabalhadores e trabalhadoras.


7. Como foi o processo de transformar suas músicas em um livro?


Durante a visita à Colômbia encontrou uma amiga que disse ser parceira de uma editora e eu comentei sobre os raps. Dai em diante as trocas ficaram mais intensas e rolou a produção.


8. Você teve algum mentor ou inspiração musical que o influenciou nessa jornada?


A orientação é o senso de justiça. Ver pessoas amigas passando fome, sem tetos tendo como lar uma caixa de papelão. Isso por si só gera uma revolta.


9. O que você espera que os leitores e ouvintes retirem das suas letras e histórias?


O livro é uma maneira de consolidar uma luta que não se encerra com a entrega das chaves. Muitas etapas dessa luta estão nestas poesias. Desta forma a esperança e que as pessoas sintam que o poder popular é possível com organização e militância engajada.


10. O que acha que falta na mídia convencional em termos de cobertura do MTST?


A mídia convencional atende interesses da ideologia dominante. Por isso, faltam nessa mídia a ética, transparência, cultura e informação de qualidade. Temas que são previstos inclusive na lei de concessão temporária do serviço


11. Como você vê o futuro do Movimento e seu papel nele como artista?


O MTST será um dos movimentos sociais que vão organizar politicamente a sociedade brasileira nos próximos anos. Fazer parte de uma pequena parte desse processo é gratificante e fico orgulhoso de ter feito um pouco para vencermos essa luta.


12. Há alguma colaboração musical ou literária que você gostaria de fazer no futuro, relacionada a esse tema?


Sim. O próximo trabalho seria produzir uma obra que elabore cada verso e ajude a entender o contexto de cada um deles.


13. Como o Movimento recebeu a ideia do livro e de usar a música como forma de expressão?


O movimento tem uma frase: "Se o povo soubesse o talento que ele tem não aturava desaforo de ninguém".

Neste sentido o movimento é o principal motivador destas ações de construção de poder popular e resistência e incentiva a produção de poder popular através do setor de arte e cultura.


14. Quais são os seus planos para o futuro, tanto musicalmente quanto em relação ao ativismo social?


Quero participar de eventos para divulgar o trabalho, dando sequencia nas assembleias e continuar contribuindo com os próximos anos de vida do MTST Brasil.


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