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Paz, Sol e Quiche - entrevista com João Chagas

Atualizado: 25 de Jul de 2019


João Chagas é formado em Letras-Inglês pela Ufes e escreve em blogs desde 2005. Possui três livros publicados. Além do seu lançamento mais recente, Quiche (Editora Pedregulho - 2018), ele escreveu Tem sol na ponta do deque (Cousa, 2016), roteirizou a história em quadrinhos Veneno Paraíso (Secult – 2013), foi vencedor do prêmio Ufes de Literatura com o romance A paz dos vagabundos (2014) e teve um conto publicado na coletânea Sem a Loucura não dá - A poesia de Sergio Sampaio em prosa (Cousa, 2017). O escritor também faz parte do núcleo editorial da Revista Trino, publicação capixaba sobre literatura contemporânea.



Confira nossa entrevista:


Quiche” (Secult/Editora Pedregulho - 2018) é o seu quarto e mais recente livro. O livro conta a história de Só, que vai morar com Nego, para conseguir escrever seu primeiro livro. A história aborda, entre outras coisas, o processo criativo e queria saber: como é a sua forma de escrever? Há uma rotina ou é algo mais solto?


Algumas coisas da forma de produção da Só (personagem de Quiche) são parecidas com o meu processo: em alguns momentos eu consigo ter grandes períodos bastante focados e passar dias escrevendo e reescrevendo; em outros momentos eu passo dias sem conseguir nem olhar para o texto. E definitivamente foi o caso para escrever Quiche, desde 2012. Mas o “Paz” (A Paz dos Vagabundos), por exemplo, eu escrevi em menos de duas semanas, do começo ao fim. Acho que o único padrão que consigo identificar no meu processo de escrita é que o que me leva mais tempo e esforço é reescrever, apagar palavras e reorganizar parágrafos, coisa que eu comecei a fazer conscientemente dentro do Cronópio.


Você mais uma vez usa o cotidiano de plano de fundo, mas em Quiche parece que a história se passa em um universo paralelo, no qual são dadas poucas dicas de espaço e tempo. Queria que você falasse um pouco sobre essa atmosfera do romance.


Uma grande parte do que eu cortei da ambientação em Quiche foram quase umas cinquenta páginas que explicava as regras diferentes desse mundo quase real. No final das contas a coisa toda me pareceu muito chata, as formas que eu tinha achado para integrar essas coisas nas histórias estavam repetitivas e com muita exposição e decidi só cortar mesmo. Alguns fragmentos persistiram ainda e gosto da forma quase alienígena que dá para algumas cenas. De todo modo, aquelas personagens vivem nessa realidade que ainda está lá e é viva, e tem alguns problemas de organização de sociedade parecidos com os nossos e alguns que serão só dessa realidade. O conformismo e a inquietude funcionam da mesma forma.


Em Quiche, a narrativa vai se desenvolvendo com uma organização própria, com interferências do narrador, dos personagens, de objetos inanimados, além de cenas fora da ordem cronológica e receitas culinárias. Você já falou que o livro demorou 5 anos para ficar pronto e foi modificado seriamente pelas pessoas com quem você conviveu durante esse tempo. Pode falar um pouco sobre essa questão de tentar ficcionalizar a realidade?


Como eu vejo, uma das senão a principal tese do livro é amizade, é como conviver e como reagir e como estimular. Portanto as histórias que foram se formando ou evoluindo ao longo do período de edição de Quiche acabaram gerando esses estímulos para a forma final do romance. Mas acredito que mais do que ficcionalizar realidade, o meu processo é mais sobre tentar excluir as minhas vivências (ao máximo das minhas habilidades) da história ficcional que estou tentando criar. Sempre sangra muito, mesmo assim.


Como já mencionei, Quiche aborda diversos temas, entre eles a amizade e a cumplicidade dos 3 amigos que vão morar juntos, mas voce diz que o livro é basicamente sobre cidades, por quê?


Porque acho que a cidade é o ápice da convivência. A forma como elas se organizam, como reagem aos próprios planos e ao resto da natureza. Pelo menos na nossa época.


O seu primeiro livro publicado “Veneno Paraíso” (Secult - 2013) é uma história em quadrinhos. Como foi esse processo colaborativos de escrever e ao mesmo tempo ter q se relacionar com as imagens também?


Veneno Paraíso começou como a adaptação de um conto meu feito pela Ayla e Isabela. O conto inicial nem sabia que ia ser quadrinho quando estava sendo escrito. Junto com a vontade de produzir, lemos esse conto e gostamos as imagens que ele trazia e de lá extrapolamos vários elementos novos para criar uma nova história que quase nem parece com o conto. Na minha opinião, bem superior. Lembro que o livro não estava funcionando em um momento, com quase tudo finalizado, e o que resolveu foi remover várias falas e situações do texto original e deixar o meio novo contar essa história que estava se criando. A colaboração estava bastante fora da minha zona de conforto na época. Conversamos logo depois sobre escrever mais um livro de quadrinhos na mesma cidade de Veneno Paraíso, mas as conversas ainda são só conversas. A propósito, o conto “Queiroz”, do Sol, seria a base para esse segundo livro de quadrinhos. Mas desde então nem produzi mais nada nem perto daquilo, nem colaborativo dessa forma, apenas participei de coletâneas. Tenho vontade de retomar esse tipo de projeto.


Também fruto de um prêmio, o romance “A paz dos vagabundos” (Edufes - 2014) tem uma história quase insólita de um assassino de moradores de rua, no Centro de Vitória. Como surgiu a ideia desse livro?


As estruturas das minhas narrativas costumam ser bem parecidas. Normalmente, eu produzo um esqueleto com os pontos por onde gostaria que a história caminhasse e onde deveria chegar, depois preencho com pesquisa e leituras e histórias de ambientação. Para o Paz, quis escrever uma história sobre frustração. Aliei uma personagem protagonista bastante arrogante a uma forma exagerada de expressão de valores. Não consegui imaginar nada mais esdrúxulo do que a mediocridade toda do Ian e esse sentimento de importância que ele sente com essa coisa higienista que ele faz. E é bem estranho ver essas atitudes e esses valores expressados tão comumente alguns anos depois; assim como era esquisito quando leitores me diziam que se identificaram com o Ian, sempre me deu um pouco de medo.



Diferente do romance anterior, “Tem sol na ponta do deque” (Secult/Editora Cousa - 2016) tem uma linguagem mais poética e flerta com o realismo fantástico. Queria que você falasse um pouco sobre o processo de criação desse livro.


Esse livro é uma coleção de contos que escrevi entre meus 16 e 25 anos. Por isso é um pouco difícil falar sobre o processo todo do “Sol”. Na última revisão antes de finalizar o livro, decidi reorganizar os contos numa ordem que ajudasse a propagar essa estranheza das realidades das personagens ao longo do livro. Dentro do livro tem essa pequena série de oito fábulas numeradas e sem moral que são apresentadas numa ordem não cardinal exatamente para gerar estranheza se quem estiver lendo quiser tentar conectá-las. O que me agrada mais nesse livro de contos é a atmosfera que persiste ao longo dele, por causa desse processo de edição. Esse foi um livro publicado no edital da Secult, mas que recebeu notas baixíssimas em pelo menos quatro anos seguidos antes de ter passado em 2015. Ultimamente não tenho escrito contos mais. O meu processo de escrita já mudou bastante desde a época dos blogs, acho que encontrei um pouco da minha veia em escrever narrativas mais longas e portanto eu acho que precisei publicar o Sol para aliviar um pouco da pressão que eu sentia com a publicação de contos. No momento e pelo futuro próximo, não me vejo trabalhando em contos soltos mais, mas em romances, provavelmente. Se retornar aos contos, seria com um projeto de um livro inteiro que comunicasse consigo mesmo, ao invés de trabalhar várias produções de momentos diferentes da minha vida de escritor para tentar conectar um tema ou algo de coesão. Nesse sentido, recomendo o Bárbara, da Brunella Brunello como um ideal da estrutura de um livro de contos que eu gostaria de produzir um dia.


Gostaria de saber se você tem trabalhado em novos projetos e quais.


Entendo que publiquei bastante em pouco tempo, foram quatro livros e uma participação em coletânea em seis anos. A velocidade da minha produção mudou um pouco e confesso que tenho medo de perder um pouco da empolgação quando isso acontece. No momento estou no começo de um novo romance que eu acho que consigo finalizar até o ano que vem, mas a tese principal dele ainda não está óbvia pra mim, então acredito que não consigo falar muito sobre do que vai se tratar ou como que vai ser apresentado. Tenho lido Murakami esses dias e estou bastante encantado com a forma de organizar a estrutura narrativa do romance, preciso de um tempo para conseguir voltar a escrever isso como referência e não como plágio.


Entrevista por Lívia Corbellari

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