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  • Editora Pedregulho

Os bichos de Ana e Eduardo Madeira

Por Paulo Roberto Sodré


Sergio Faraco, em 1997, organizou um livro curioso com o título Livro dos bichos, em que recolhe poemas de língua portuguesa de 1500 a 1900. Neles pulgas, anfíbios, maitacas, morcegos, além de animais mais previsíveis em versos (cigarras, sabiás, cavalos, ovelhas), frequentam as imagens, metáforas e alegorias que os poetas de variadas têmperas consagraram.

Não são esses bichos, contudo, que habitam a narrativa de estreia de Eduardo (Costa) Madeira. Nem o grifo ou o unicórnio do bestiário medieval, nem a manticora ou a banshee de Jorge Luis Borges, no Livros dos seres imaginários, nem os estranhos seres femininos de Luiz Guilherme Santos Neves, em sua Torre do delírio.

Julio Cortázar e sua narrativa Bestiário é que adejam esse livro de estreia do cinegrafista e roteirista (O uivo da carne na terra da luz [2014], por exemplo) e pesquisador de Cinema e Literatura, em que se destacam as observações sobre o cinema japonês (Naomi Kawase, Yasujiro Ozu e Takashi Miike), o corpo e sua dimensão zen.

Marília Carreiro, a editora, imprime ao projeto gráfico o que ronda cada página do livro: os bichos que espreitam o desejo de se manifestarem para além das frestas e à revelia de quem os tem presos. O tamanho quase pocket, a capa em azul quase enegrecido e com a fonte branca em caixa-alta sem serifa amparada pelo desenho de fresta ao lado esquerdo e o felino, na contracapa com o auspicioso texto de Sérgio Blank, guiam o leitor na curiosidade de espiar de que frestas habitadas trata o livro que não é um bestiário – ou seria? –, mas uma sequência de “contículos” indômitos que espiam (ou buscam a unhadas) a possibilidade de se expor.

Deixemos de prolegômenos e créditos.

As frestas de que emergem os escondidos bichos de Ana são as rachaduras de que se serve Madeira para vislumbrar enredos, contar-nos sua história e jogar com suas variadas referências literárias e cinematográficas nesse livro de descobertas desestabilizadoras: a da leitura, a da invenção, a da escrita. Delas resulta a assunção da narrativa que enovela essas descobertas num redemoinho em que autor, narrador, personagens, espelhos caleidoscópicos de uma mesma persona (a de quem se deixa à deriva para se perceber e se desdobrar em qualquer coisa para além de si mesmo), se desmoronam e recompõem-se, inovados em si mesmos pelo escrever.

Essas ideias surgem a partir da leitura da irônica “Nota do autor”, assinada não por Eduardo Madeira, mas pela elusiva abreviatura E. M., em abril de 2017. O texto, à guisa de aparente introdução, pretende nos levar a acreditar que Ana o acompanhou na extração de histórias que o autor Eduardo Madeira (ou E. M.) organiza em duas partes. Assim, meio pessoa – com alguma possibilidade de biografia, talvez identificável em cartório qualquer em que se amontoam vivos e mortos e, sobretudo (eis uma das manhas dos escritores), inventados, em papeis burocráticos –, meio alter ego, Ana conduz o autor, psicopompicamente, a lhe mostrar, num “percurso torto, curvilíneo”, as rasuras de onde extrair parágrafos, imagens, intertextos para quem, ao fim, só almeja “o gesto de apreciação literária”. Do percurso emergem as duas partes que agregam as 26 narrativas que, como indica E. M., compõem a “novela dessa companheira” sensível a cães e gatos e lagartixas.

“A parte dos bichos”, com treze “capítulos” habilmente cifrados como possíveis memórias de ensaios, rabiscos, rascunhos e rasuras da escrita de Ana, antecedidos por um prefácio na voz primeira-pessoa da mesma Ana (ou de E. M., se consideramos a frase final de sua Nota: “Nos vemos em breve”, o que pode significar ainda sua intromissão na narração dos bichos-contos de Ana, autora e personagem nas 26 narrativas curtas que compõem o livro, ou a “encarnação” de E. M. na própria Ana, feita de texto e intertexto, o que parece ser sugerido pela epígrafe do Véio Joaquim, Rei de Angola: “As almas quando elas escrevem, / O mundo não desfaz”).

“A segunda parte de Ana”, com mais 13 capítulos, não mais pequenos textos relativamente autônomos, mas capítulos da ação novelesca que envolve Ana, Nena, Malaquias, Mãozinha, mãe, pai, os felinos Ritalina e Rivotril, Bob, seguidos, em paralelo oposto ao da primeira parte, de um posfácio que retoma o discurso inicial da “Nota”: teria Ana acertado em deixar minar das frestas seus bichos? A voz primeira-pessoa desse posfácio retoma a da Nota. É de Ana, arriscamos, que se trata.

Diferentemente da segunda, uma novela (isto é, uma narrativa que avança o núcleo de ação de um conto, mas não almeja a complexidade no tratamento de caracteres de um romance), a primeira parte inclui minicontos (os contos em sua concisão máxima) ou poemas em prosa. Vale lembrar, a propósito, o que afirmam Italo Moriconi e Fernando Paixão a respeito de contos e de poemas em prosa.

Para Moriconi, que se debruçou sobre a produção contística brasileira para extrair dela sua antologia dos cem melhores contos do século XX, é importante considerar “a porosidade do gênero conto, a capacidade que o conto tem de confluir e confundir-se com gêneros próximos, como o poema em prosa, a crônica, a página de meditação, o perfil de uma personagem, a página autobiográfica”[1]. Paixão, ao comentar os poemas em prosa, afirma que estes

[...] assumem um formato próximo do comentário, da anotação íntima ou casual, em que predomina a naturalidade discursiva. Nesses textos a propriedade dos argumentos e das ruminações revela-se tão importante quanto as imagens evocadas; pensamento e visualidade articulam-se numa só dicção. Sobressai uma escrita concisa – e contraditoriamente sentenciosa –, interessada muitas vezes em registrar o flagrante da subjetividade em face da circunstância real ou imaginária. Dito em outros termos: o poema se transforma em “pequena reflexão”. Conceito arriscado, genérico demais talvez, mas que sintetiza numa só expressão essa qualidade difícil de conceituar e que está no cerne dessa poética. Impulsionado pelo viés reflexivo, o poema costuma deslizar para um tom rebaixado, sem ornamentos, acionando uma sensibilidade aguda e sintética[2].

Por essa razão, os textos da primeira parte oscilam em sua natureza híbrida e revelam uma variedade de linguagem que pende ora para um certo realismo (“famílias e seus mistérios”, “professor”), ora para um insólito (“pernas” ou “bicho cortázar”) com alguma dose de humor estranho que acaba por predominar (“betina coelho”, “lhamas”). Na segunda parte, entretanto, mais amalgamada na sequência dos capítulos e situações, um realismo urbano contornado de humor e melancolia revela a trajetória de Ana em seus dribles contra os vazios e as angústias e os animais em fendas.

Como se pode perceber, Madeira elabora uma narrativa em que a parte primeira prepara o leitor para a segunda, mas não para acomodá-lo numa explicação ou orientação didática em relação ao funcionamento desses dois blocos de histórias. Se Ana tem problemas com o começar e finalizar (e até mesmo desenvolver) seus textos, como ela afirma no prólogo a “A parte dos bichos”, Madeira brinca (atenção à epígrafe de Os Mutantes) com os inícios, os meios e os desfechos das narrativas, relativizando (se não homenageando ludicamente) os conceitos e conselhos de contistas veteranos de que saber principiar um conto e concluir uma novela é fundamental. Talvez por isso Ana se ressinta de seus textos, mas não Madeira, sensível à narrativa literária e cinematográfica, de onde extrai suas soluções de contador de histórias.

Em Os bichos que habitam as frestas, Eduardo Madeira dirige sua narrativa sob o influxo do mosaico (ou da técnica de montagem, outro modo de ler os contículos da parte 1) e do fragmento. Dirige-a assim, sugerindo a agonia de quem existe nestes tempos de estupefação e paralisia e de quem retira dos buracos, dos porões, dos recalques, das frestas o que precisa e deve vir à luz da escrita e da leitura, pois se o ânimo adoece, os bichos espreitadores (não tendo mais como se alimentar apenas da poalha da alma) parasitam você, nervo a nervo, por inteiro.

Não poderia ser diferente: a contemporaneidade pulsa como uma malta de estilhaços, brilhantes, mas ainda assim pedaços, partículas, frações de individualidades e desejos quase sempre insones, atarantados diante do espetáculo do mundo inevitavelmente líquido, onde nos movemos estupefatos e às vezes paralisados.

Que os bichos habitem frases e imagens, como as de Eduardo Madeira, antes que suas sombras estalem nossas luzes.



Paulo Roberto Sodré

Vitória, 28 de agosto de 2018.


______

[1] MORICONI, Italo. Introdução. In: ______ (Sel.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. p. 11-16. p. 15.


[2] PAIXÃO, Fernando. Poema em prosa: poética da pequena reflexão. Estudos avançados, São Paulo, v. 26, n. 76, p. 273-286, 2012. Disponível em: < http://www.revistas.usp.br/eav/article/ view/47557/51286>. Acesso em: 4 ago. 2018.



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