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  • Editora Pedregulho

Rap e resistência

Nix: microfone por tubos de ensaio será lançado dia 11 de dezembro de 2018, na Biblioteca Pública Estadual do Espírito Santo

Ao ler Macunaíma, Wagner Silva Gomes se deparou com a personagem em uma macumba, com artistas da primeira geração modernista, como Manuel Bandeira e Blaise Cendrars, francês que visitava o Brasil, e pensou o quão fantástico era Mário de Andrade ficcionalizar um acontecimento tão importante para a cultura do país, em companhia de compartes de geração. Decidiu que, quando escrevesse um livro, utilizaria também esse recurso. Desde então, ao escrever literatura, este é um dos primeiros recursos em que se apoia. Classe Média Baixa (Pedregulho, 2014) tem essa característica. Nix: microfone por tubos de ensaio também traz, em seu enredo, cenários próximos (Grande Vitória) e eventos reais, como a Cachaçada Literária e o Sarau contra o golpe, protesto de alguns artistas residentes na Grande Vitória contra o Golpe sofrido por Dilma Roussef em 2016. Do Sarau contra o golpe saiu a antologia Osso de escrever. O autor registra o acontecimento na ficção, em um capítulo com o mesmo título.

Quando pergunto sobre a escolha do cenário capixaba para o autor, ele diz:

Hoje considero o cenário artístico e social capixaba muito estimulante. Então, como o Mário de Andrade, destaco os meus companheiros de geração em eventos que muito me honram participar. Politicamente dar importância às ações de resistência é fazer da periferia de nossas vidas o centro, é ninguém soltar a mão de ninguém que lhe fortalece. Sobre a Cachaçada Literária e o Sarau Contra o Golpe quem quiser que confira no livro. Espero que alegre a galera de geração e dê a dimensão da importância para os leitores comuns.

A estrutura textual é algo que chama muita atenção na obra de Wagner. Em Classe Média Baixa ele trouxe a música, o carnaval e reflexões políticas muito importantes. Em Nix também traz tudo isso, e a música, neste momento o rap, circunda a vida da protagonista Ká. Para estruturar a personagem, o autor utilizou suas experiências e poesias.

Tempos atrás eu me encontrei com o Casé Lontra Marques, autor que muito admiro para pegar um de seus livros e tomar um café, e dentre os assuntos falamos sobre a importância do rap na poesia contemporânea. Eu disse a ele que estava mais interessado atualmente no rap feito por mulheres. Acho que daí surgiu a ideia do Nix, porque ele me perguntou se eu tinha vontade de ouvir poesias minhas com viés de rap na voz de cantores. Então é assim, as coisas vão se conectando. Resolvi criar um livro em que a protagonista é uma cantora. A dimensão do rap precisaria de um fundo social objetivo, que é o que o faz vir da ação. Daí veio a minha experiência como educador social de Abrigo, que parafraseando o rapper Inquérito, é fazer rap também, de outra forma, mas é. Como Velasquez em "As Meninas", narrado por Foucault, texto que li na graduação e que me é fundamental, vi que o educador passaria nos bastidores enquanto o destaque seria a assistente social. Eu estava ali como educador, como Velasquez. E a assistente social estava como a rainha. A partir daí dava pra movimentar a engrenagem do enredo.

Zacimba Gaba, Maria de Fátima, Lourrainy, Vitalina, Nilza, Kathierline, Panteras Negras, Malcolm-X, Buda, Kafka, Criolo, Emicida. As referências de Wagner para construção de Nix são essenciais para tratar dos temas que o livro traz, como abrigo social, tráfico de pessoas e a luta social por melhor qualidade de vida. Em 2018, após esse choque na nossa história, que mostra cada vez mais a capacidade fascista das pessoas que estão ao nosso redor, Nix: microfone por tubos de ensaio é, sem dúvidas, uma frente de batalha a favor do bem-estar social, das políticas públicas de inclusão e reabilitação e dos Direitos Humanos.

Os temas são colunas, ou arestas, como disse a Maria Amélia, em uma conversa sobre o maravilhoso prefácio que ela escreveu para o livro. Vendo as arestas como colunas, "a fundação é tudo menos casa". A aresta pode ser muitas vezes uma casa, dependendo do ponto de vista. Se arranha-céus o são. "Minha casa minha vida" o é mais. Alguns amigos que perdi para o tráfico, pessoas que vi terem a voz de seus seres abafadas por opressão e falta de oportunidade, são minhas arestas-casas. Com o Abrigo somou-se outra aresta, que muitas vezes é a ligação do que eu não pude fazer por meus amigos e agora faço por outros a partir da convivência potente de ressignificação dos atos, leitura do mundo, boas atitudes cidadãs etc., e diálogo muito diálogo. Com isso, tudo o que fere o respeito às etnias, os programas de promoção social, a igualdade de gênero, me é muito sofrível porque essas são arestas para pessoas como eu se apegarem e se constituírem sujeitos de fato. Nix é uma prova de que lutaremos por nossas vidas plenamente. Se fere a minha existência serei também resistência.

Serviço

Lançamento do livro Nix: microfone por tubos de ensaio

Quando: 11 de dezembro de 2018, terça-feira, das 19h às 21 horas

Onde: Biblioteca Pública Estadual do Espírito Santo (Avenida João Batista Parra, 165 - Enseada do Suá, Vitória - ES)

Preço do livro: R$ 40,00

Aberto ao público


Dados técnicos

ISBN: 978-85-67678-36-8

Tamanho: 15x21cm

Edição: 1ª

Ano: 2018

Idioma: Português

Número de Páginas: 188





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