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A bicha é um buraco



Eu só consigo falar da bicha por adjetivos. A bicha é extremamente escorregadia, como a piaba. Quando você acha que deu conta da bicha, ela foge, está sempre a escapar. Desde o lançamento de A Boa Bicha, tenho falado e conversado muito sobre bichice. Eu sempre falei sobre, mas me quiseram especialista em bicha desde então, fazer o quê. Quiseram definições, dei alguns comentários irônicos. Talvez porque, assim como a grande maioria das pessoas, a bicha me assusta. A bicha é deslocamento. Respondi algumas dezenas de vezes em rodas de conversa e em entrevistas a pergunta “por que bicha?”. Mas me intrigou muito mais a pergunta “o que seria uma escrita bicha?”. Não quero nada de academia, quero o papo de mesa de bar, bem soltinho, molinho. Talvez falar de escritoras bichas seja mais fácil e potente do que falar de uma literatura bicha, essas coisas com letras maiúscula, cheia de pretensão. Falemos de Antonio Botto, a bicha portuguesa. Amigos diziam que ele era uma serpente e vivia a insinuar coisas de seus pares com humor sarcástico. Sua execração pública da sua sexualidade tem um discurso que não deixa mentir: o que incomodava as pessoas não era o fato de Botto manter relação sexual com homens, mas adotar trejeitos femininos, dar close e pinta horrores. Claro, isso foi dito cheio de eufemismos. A bicha é incômoda. Botto escreveria: “Passam por mim, desdenhosas,/ Em gargalhadas mesquinhas./ Sim; eu sofro sem dizer nada:/ - Sou ave/ Bem educada”. Me parece que a bicha é um problema de gênero, se entendermos que este é o modo como simbolizamos nossas diferenças anatômicas e como força subjacente usamos esses sentidos para criar desigualdade de tratamento entre homens, mulheres, heterossexuais, homossexuais, transexuais e pessoas intersexuais e essa diferenciação aparecendo como rechaço. Eu acredito que nem toda bicha é homossexual. Algumas são bi e outras heterossexuais. Aqui me interessa mais tratar esse lugar em que papéis de gênero perdem sentido (ou ganham sentidos novos). Se há uma escrita bicha é de alguém que abraça isso e ostenta com orgulho, querendo mesmo causar. Que palavra bonita é causar. No dicionário diz que quer dizer [1] Ser causa de; [2] Originar; [3]. Produzir. Causar, uma das atividades principais da bicha, é produção de espaço. Já percebeu como uma bicha é espaçosa? E não importa quão magrinha ela seja, ela toma o espaço com sua luz intensa. Lembro de um ano no carnaval de Vitória, no desfile das escolas de samba, em pleno Sambão do Povo, uma bicha sambava e fechava horrores dançando bem afeminada. Ao redor da bicha se abria uma clareira em meio a multidão e TODA a arquibancada e TODO o camarote assistia a bicha, gritando e aplaudindo, por admiração ou por despeito. Milhões de plumas, quilos de paetês, refletores, carros alegóricos de dezenas de metros passando há poucos metros não tombavam a bicha. Uma bichinha de cropped é maior que toda uma escola de samba. A bicha é carnaval e o (bom) carnaval é bicha. Isso enquanto processo externo, enquanto agir no mundo. Enquanto processo encarnado, a escrita bicha só pode se manifestar como pinta. Pin-to-sa! Afetada! AFEMINADA!!! Outra palavra maravilhosa é afeminada. Afeminada não é feminina, é quase, mas não é. É homenagem e deboche ao mesmo tempo. A pinta enquanto processo de criar a si mesmo, enquanto processo de subjetividade, é ficar bagunçando o gênero e a sexualidade. Diferente da travesti, a bicha é bagunça. A bicha pega “as coisas de homem” e “as coisas de mulher”, paus, bucetas, peitos, batons, hormônios, pelos, ovários, profissões, cus, papéis sociais, salto alto, mais-valias, dildos, joga tudo no liquidificador, bate mal batido, dá uma misturada no truque e serve com muito gelo. BEM FRESCO! Em resumo, a escrita bicha é causação e é dar pinta e isso diz sobre o tema, diz sobre caminhos narrativos, diz sobre a estética, diz sobre linguagem, diz sobre afetações de personagens e diz sobre estar diante de um texto. E é uma escrita encarnada. A bicha é carne. Uma carne sempre de-li-ci-o-sa! Uma carne SEMPRE exposta. A bicha é um buraco. Como diz Wald(eusa)(o) Motta, um “buraco que come/ buraco que caga/ buraco que vê/ buraco que ouve/ buraco que fala/ buraco que pensa”, que anda, que sente, que ama, que sofre, que chora, que sonha... Escrevo este texto no bloco de notas do celular no bar Âncora do Marujo, em Salvador, Bahia, cercado de um monte de bichas, enquanto no palco Sasha Heels faz sua icônica performance de Fabety Boca de Motor, uma bicha compositora, das coisas mais interessantes por aqui. Já reclamam me chamando de uó porque não saio do celular. A bicha está sempre fugindo da gente, a gente está sempre fugindo da bicha, mas a bicha se persegue.



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Sérgio Rodrigo é escritor, jornalista, artista gráfico e pesquisador. Nascido no interior de São Paulo, vive em Salvador-BA. Lançou, em 2016, seu livro de estreia, A Boa Bicha, pela editora Pedregulho. É doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e milita nas questões de gênero e sexo.

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