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  • Editora Pedregulho

Leia uma crônica do livro "Coração estafermo"

Atualizado: 18 de Out de 2019



"Nós"


Era incrível. Acordar todas as manhãs com seu cheiro em meu travesseiro – que você insistia em usar, mesmo tendo o seu –, ir ao banheiro e deparar-me com pequenos fios de sua barba na pia, pois, mais uma vez, você acordou atrasado e não teve tempo de limpar a bagunça que deixou pra trás. Uma gravata pendurada na cabeceira da cama, roupas amontoadas numa cadeira – para que um cabideiro se temos o quarto inteiro, não é mesmo? –, além de livros entre xícaras de café por toda parte. Talvez eu devesse arrumar essa bagunça ou, quem sabe, bagunçar um pouco mais?


À noite nos encontramos, estamos cansados de tudo e de todos, menos um do outro. Em meio aos pingos do chuveiro, sinto suas mãos, você me abraça e solta um suspiro profundo. É quando percebo seu alívio em ter chegado em casa. Do chuveiro, vamos para cama e da cama para sala; sentamos no tapete e conversamos por horas.


Primeiro, você bebe em silêncio enquanto escuta sobre como foi o meu dia, porém, solta uma tímida risada quando conto minhas atitudes estúpidas e meio infantis. Depois, gesticula falando sobre o babaca do seu chefe e como ele age de forma mesquinha. Fico em silêncio, é a minha vez de ouvir. Entre desabafos, também surgem conselhos e até segredos – para mim não foi muita surpresa saber aquilo sobre sua prima. Juntos descobrimos conspirações da humanidade – tais como o Paulo do açougue, que insiste em dizer que sua carne é melhor que a do Carlos, apesar de os dois comprarem do mesmo fornecedor. Depois dançamos de modo desajeitado e sem ritmo mas, com cuidado, para não esbarrar nas garrafas.


Após um tempo, seu silêncio começou a me causar dores de cabeça, sua falta de toque me sufocava e seu olhar frio me deixava fervendo em insegurança; o pior foi quando você me chamou de “Laura”. Laura? Quando passei de “Querida” para isso? Nunca pensei que odiaria tanto ter alguém me chamando pelo meu primeiro nome.


Aos poucos nos perdemos, talvez tenha sido nas discussões sobre o carro ou, quem sabe, em uma de minhas crises de ciúmes. Talvez tenha sido algo que eu disse ou algo que deixei de dizer. Quem sabe você tenha se cansado de mim? De minha monotonia. O “nós” tornou-se “eu” e “você”, mas, se foi uma divisão igualitária, por que no final sobrou apenas metade de mim?



Crônica da estudante Jamilli Couto Dias, publicada na coletânea "Coração Estafermo". O livro esta à venda em nossa loja virtual aqui: http://bit.ly/2UDvmwR

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